38 semanas. O ultrassom era às 9h. Eu chamei o elevador e olhei no relógio:
- Preta, a gente vai se atrasar.
- Espera, que eu preciso fazer xixi.
Ok, pensei, grávidas mijam e vomitam mais do que calouro em cervejada na facul.
- Tá, mas o elevador já está chegando!
(silêncio)
- Acho que o Santi também...
Será que eu ouvi direito?
- Minha bolsa estourou!
Normalente eu riria da situação: a Michelle estava com a calça completamente encharcada entre as pernas e sorrindo, como um calouro bêbado.
Foi o tempo dela vestir uma saia e eu achar a tal "mala da maternidade". Enquanto a Michelle era acalmada pela obstetra dela pelo celular, o trânsito de sábado de manhã ajudava a gente a chegar rápido à Pro-Matre.
Mas a pressa não era só nossa. A maternidade estava lotada, segundo as enfermeiras, porque um eclipse na madrugada convergiu energias para o estouro das bolsas de muitas Sofias e Pedros.
O pronto atendimento detectou o que a gente já sabia: o bebê estava sentado. Cesárea nele!
Eram quase 10 da manhã e a previsão de vaga no centro cirúrgico era só para depois do meio-dia. Fomos encaminhados provisoriamente a um quarto de bacana, desses que o convênio não cobre, mas que o pessoal não cansa de oferecer, vai que o casal se encanta com o conforto e resolve pagar mais 700 reais por dia. Obrigado, mas já tem sala livre pra cirurgia?
O tempo não passava. Eu já tinha lido todos os impressos da pasta de internação, já sabia os horários do berçário, da lanchonete e até a temperatura de congelamento do sangue do cordão umbilical.
Já tinha passado da uma da tarde, quando enfim a camareira, digo, enfermeira veio avisar que chegou a nossa hora. Sim, eu iria junto para acompanhar tudo.
Mesmo antes de tomar a anestesia, a Michelle estava muito mais tranqüila do que eu. Chegando no centro cirúrgico, até quem é acompanhante tem que vestir somente aquelas roupas esterelizadas, com touca e tudo. E enquanto não te chamam, você fica numa sala de espera branca, muito branca, sem nenhum objeto de decoração ou revista para ler. Não tenho noção se foram 5 minutos, 20 minutos ou uma hora. Mas sem nada para reter minha atenção, eu abaixei a rotação e me acalmei.
Quando a enfermeira veio me chamar, a Michelle já estava deitada na maca. Um lençol estendido como uma cortina entre o tronco e a barriga dela dificultava a visualização do local da cirurgia. Mas não impedia. Também não evitava que o cheiro de queimado se espalhasse pela sala. Um bisturi elétrico ia abrindo o caminho de Santiago.
Em menos de 5 minutos, já dava para ver um pezinho dele lá dentro. Em pouco movimentos, a obstetra já puxava os dois pés. Quando a cintura dele estava saindo pelo corte, um berro vindo lá de dentro começou a ecoar na sala. Graças a Deus.
Sim, porque um pedaço de carne, meio roxo, cheio de sangue e sebo parece muito mais uma peça de lombo do que seu filho. Mas meu lombinho estava lá se esgüelando de tão vivo. Ufa!
Corta-se o cordão e mostra-se o recém-nascido, do jeito que está, para a mãe. Quase sempre é uma foto feia. Mas a nossa fica linda.
Um médico neo-natal pega o bebê para limpar, fazer uns testes etc. Estava tudo normal: 3,080 kg, 48,5 cm, hora do nascimento 14h19. A enfermeira obstetriz enrolou o boneco em uma toalha:
- Aqui está seu filho. Vai mostrar pra todo mundo.
Ao segurar pela primeira vez meu filho no colo, não segurei o peso da emoção. Chorei um litro durante os 10 metros de corredor que nos separavam dos avós dele.
Eu era o filho e agora sou o pai. Como uma coisa tão pequena pode significar tanto?
Voltando pra sala, devolver o tesouro não é nada fácil. Escrever isso aqui também.
domingo, 7 de setembro de 2008
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